Carta aos meus filhos #113

A mamã anda à beira de explodir. Cometi a loucura de ir ao cinema no dia da estreia, e por um instante, pensei “já entendi porque é que as pessoas se passam e correm tudo a tiros”. Foi aí que me obriguei a voltar a mim, mas a dor de cabeça já estava instalada.

A Bela e o Monstro deve ser o primeiro pilar da minha personalidade. Teria quatro ou cinco anos quando finalmente pude deitar os dedinhos ao filme, e desde logo fiquei fascinada. Não tanto pelo castelo encantado, a feiticeira que nos castiga as maldades, o monstro que é afinal um príncipe. Ficou-me a mulher diferente, que lê livros e é olhada de lado por todos. Desde aí, e quem sabe com algum snobismo meu, sempre senti que, desse por onde desse, mais valia ser a Bela, sozinha mas tão completa, do que qualquer outra que suspirasse nas ruas atrás de um Gaston e que vivesse para agradar. Melhor para mim, gosto genuinamente de livros e de cultura. Mas, com o passar dos anos, custa cada vez mais lidar com a ignorância alheia. A minha paciência anda a esgotar-se para com a incivilidade do português socialmente iletrado.

Ia com o pé atrás, convencida de que a Emma Watson dificilmente encaixaria na minha cabeça como a “Belle”, mas o filme lá me conquistou e houve, inclusive, momentos em que me senti à beira do encanto ou das lágrimas. A beleza, claro está, multiplica-se em cada enquadramento da câmara. Um ambiente tão especial que só um verdadeiro grunho prefere estudar o feed do instagram.

Mas assim foi. Houve duas pessoas lá à frente que só desligaram os telemóveis quando termina a sequência da primeira canção (“Bonjour!”, em que a Belle é apresentada como uma desajustada). Estar fechada numa sala às escuras com um telemóvel cujo ecrã parecia um tablet a emitir luz, lá ao fundo, estava a pôr-me doida. Perguntava-me se a grandessíssima mula não saberia que a sala estava a rebentar pelas costuras, e que toda a gente a identificava de longe. Inclusive levantei-me para ir lá, mas estava bloqueada por umas cinco pessoas à direita e, por consideração a elas – e por não saber bem onde me levaria a minha raiva -, voltei a sentar-me. Pouco depois, começam os flashes. Sim, havia gente a tirar fotografias ao filme. Com flash. Não consigo imaginar o que vão fazer com as fotografias do filme, mas ocorre-me que vão partilhá-las na net com o #abelaeomonstro #filmedaminhavida #emmawatson. Só que passavam quinte minutos – quartos de hora agonizantes – e a pessoa continuava a olhar para o telemóvel. Que raio faz alguém numa sala de cinema com um telemóvel ligado durante parte do filme, pergunto-me eu?

A miúda atrás de mim viu o filme todo abraçada ao namorado, claramente arrastado para ali. Estava até com medo de desgrudar dele, não fosse ele fugir. De tal modo que, sempre que me virava para trás para a mandar calar – porque ora se ria alto (ok) ora comentava isto e aquilo, com os ssssss a instalarem-se-me no cérebro, não sabia onde acabava e onde começava o prisioneiro. Depois havia a da frente, que a cada cinco minutos via as horas. Depois ia ao chat do whatsapp. Depois via as horas. E então entendi que ela estava era a ver se o amigo colorido lhe respondia ao que ela dissera. Provavelmente “tou tipo, tao imuciunada a ver este filme gostu, mm bués. Já vis-te?”.

No intervalo passei-me e cumprimentei a minha irmã por estar a portar-se tão bem. Uma criança quieta e calada, apesar do evidente entusiasmo, de adorar o filme, de raras vezes ter a oportunidade de ir ao cinema. Não teceu um único comentário, comportou-se como uma pessoa educada, sabe que falar é para depois, que ali há que respeitar a experiência dos outros. Uma vez mais, emerge a educação. Emerge a capacidade de apreciarmos uma coisa como algo que é entre nós e a coisa. Emerge o respeito pelos outros e pelas regras da casa. E, por detrás da sua expressão concentrada, os flashes. Na parte da dança, o ex-libris do filme da Disney de 1991, já esperava que se fosse tudo agarrar nos telemóveis. E então, em vez de poder apreciar a beleza gritante da cena, pus-me a ver a senhora adiante a tirar foto atrás de foto, na esperança de que uma… sei lá, ficasse melhor do que as que foram divulgadas pela Disney na internet.

Atrasados mentais à parte, ocorreu-me que as pessoas estão a perder a capacidade de introspecção. E de concentração. O meu cérebro está queimadíssimo. Tão queimado que ontem saí de casa de pantufas, de manhã. Tão queimado que entrei no carro para o pôr mais perto da porta, ouvi o ranger da embraiagem e pensei “eish, tenho mesmo que o levar à oficina”, para depois pensar “que dia é hoje?! Merda, combinei ir pô-lo AGORA na oficina”, e, chegando ao cruzamento da minha rua, em vez de virar para a esquerda para o estacionar melhor, fui pô-lo ao Monte da Caparica. Isto é o meu cérebro. Mas não perdi a capacidade de me entender em silêncio e contemplação com um quadro, um livro, um filme, uma música. Ainda não caí no absoluto ridículo de tirar fotografias à tela de um filme no cinema. Ainda não fui tão abjecta que estragasse o filme a uma sala para poder combinar a minha próxima saída com um tipo que gosta tanto de mim que nem está ali.

Falando do filme em si: é sobre não nos fiarmos nas aparências. Em todos os sentidos. O monstro que esconde o príncipe. A velha mendiga que esconde a feiticeira. O homem lindo da aldeia que é uma criatura sem escrúpulos. É sobre vermos mais além e sobre sermos nós próprios, ainda que incapazes de nos encaixar. E, se não nos encaixamos, é porque este não é o nosso lugar e nos estamos a esforçar em vão. Não temos de nos esforçar para sermos quem somos ou por caminharmos naquele que é o nosso caminho. Beauty and the BeastTudo isso vem com naturalidade e, algures, está um castelo encantado, com uma biblioteca (é a nossa, de Coimbra, em luminosidade, disposição, espaço, mobiliário, decoração, etc., foi estranho ver as minhas duas personagens favoritas de um conto a folhearem livros na nossa biblioteca joanina!), onde mora uma pessoa que, à primeira vista, nada tem a ver connosco, e que, camada por camada, se vai tornando mais nossa e nós dela.

Amei o filme, odiei o Zé Tuga.

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