Carta aos meus filhos #114

A mamã é obcecada com limpezas. Hoje cheguei a casa e, sem sequer assentar os ossos no sofá por dois minutos, comecei a limpar tudo. Meti música a tocar – a Smooth Fm estava com interferência, e logo adiante há uma de música clássica. O contrabaixo ajudou-me a organizar as ideias. Sabia que seria uma limpeza a fundo, mas é o único tipo de limpeza que sei fazer, a par com aspirar a casa várias vezes por semana por causa dos gatos. Quando dei por mim a limpar o pires do sabonete na casa de banho, e as várias peças da máquina de café, e o micro-ondas, já de si limpo, é que percebi que sou capaz de ser um bocado maluca com isto das limpezas. Ou, quem sabe, seja só um modo de fazer algo útil e agradável (assim escrito parece mesmo doido) em vez de pensar. [Foi só acabar tudo para aparecerem a sô dona Ana e Cláudia, com a rua a insinuar-se-lhes nas solas dos sapatos.]

Ultimamente, ganhei o título de “gestora de más notícias”. Ando aí a decidir sobre quem sabe o quê sobre quem da família, e a quem dizemos que o outro elemento está a viver o susto da sua vida. Quem sabe o último.

A mamã tem de estar em vários sítios ao mesmo tempo, e tudo parece correr mal. Multas, riscos no carro, pouco dinheiro, muito trabalho, nada de férias à vista, quase tempo nenhum com amigos, quase amigos nenhuns por isto e por aquilo. A ansiedade a voltar. A mamã tem-se aguentado lindamente. O dinheiro é sempre pouco, tenho de me recordar de que sou uma mulher sozinha a suportar todos os custos de uma casa, com todos os seus tarecos. Ainda assim, às vezes apetece poder cometer uma loucura. Comprar um livro. Um voo. O casaco amarelo da Zara, que saiu de circulação sem que o tenha comprado. A mamã não tem muito tempo para ter pena de si própria – casaco nenhum amarelo vale a minha liberdade. A mamã é livre – na medida em que é possível ser-se livre. Não me falta dinheiro para o básico. Enquanto escolhia o perfume da Neoblanc em lixívia para a casa, entendi que ainda me posso dar ao luxo de comprar Neoblanc em vez de lixívia de marca branca. Agora sou especialista em produtos para o lar. Acho que não vos vai interessar muito o assunto, mas nunca antes tinha deambulado pelos corredores do amaciador da roupa e dos panos para o pó. Apesar de já viver sozinha há três anos (confesso que não sei se é bem isto, perdi as contas) cada dia continua a parecer novo. Devo dizer que me tranquiliza saber que a minha casa está vazia e que circulo nos seus corredores no escuro.

Somos muitos, a família – mera formalidade – sempre foi muito ruidosa, com o avô surdo, a avó aos gritos por estarmos descalços, e a vizinha a bater à porta para perguntar se ouvimos dizer na tv quanto era o aumento da reforma para esse ano.

Há coisas que, só agora, descobri sobre mim. Sozinha conheço-me melhor, e não cessam as descobertas. Por exemplo, que gosto de andar no escuro. Gosto de apagar as luzes e de me orientar sem elas. Pensava que a avó fazia isso para poupar na conta da electricidade. Talvez fosse. No meu caso, é o conforto de conhecer os ângulos da casa. Durante a noite, gosto de avançar em direcção à lua, para lá da janela da casa-de-banho ou da cozinha, e de depois regressar à cama guiando-me pelo candeeiro da rua. Gosto de ver as sombras que a noite lança nos ladrilhos da cozinha, e, às vezes vou à janela assim e fico a ver quantos vizinhos ainda estão acordados e quantos já cederam ao sono aqui na rua. Sou quase anónima. Quase inexistente. Acender um candeeiro estilhaça isso. Coloca-me no mapa, como parte da acção, e eu sou mera espectadora e assim pretendo manter-me. A mamã gosta de caminhar no escuro e no silêncio, descalça, aos saltinhos de volta para o edredão. Outras vezes, meto música e gosto de andar devagarinho, como se não tivesse de ir a lado nenhum daí a umas horas, e de puxar a gata para o colo, porque ela deixa que a sufoque com o meu amor e ainda me procura para mais. Às vezes apalpo as paredes, como se não visse realmente. Ou é dos olhos ou da escuridão, mas o corredor desemboca sempre no mesmo cómodo, e isso traz-me tranquilidade.

Que seria de mim se não fossem as gatas? Muita gente não entenderá, decerto, a ligação de alguém a um animal. Podem concluir que é carência, talvez até seja. Mas a verdade é que não estou sozinha. Enquanto escrevo, ela está estendida na sua cama aos meus pés. E falo com elas. Já imaginaram a mãe sem ter com quem falar? Que seria de mim, da minha voz, se nunca pudesse praticar esse nosso traço evolutivo? Não sou um bicho. Mas falo com bichos, porque as paredes não têm olhos para me ver de volta. E a Valentina corre para mim e pede festinhas.

A mamã gostava de conseguir ler, mas o meu cérebro não permite. Há minutos descobri o telefone fixo dentro de um saco de papelão destinado ao lixo em papel. Fui eu que o pus lá, recordei-me de o ter feito há uns dias, para levar da sala coisas que andavam em cima da mesa…

Estou metida num ciclo complicado. Basta-me não comer bem dois dias que fico fraca. Fraca significa cheia de sono, incapaz de levantar um braço. De facto, agora estou a escrever e doem-me os braços. Às vezes a mamã conta dias seguidos em que não almoça nem janta. Porque deve ir aos CTT, porque deve ir ao Hospital, porque precisa daquela hora para depois sair mais cedo e ir tratar de a, b e c. Ontem a mamã chegou às oito e meia da noite com um pão com manteiga e quatro bolinhos de areia no estômago, comidos às 09:00. A fome incomodava-me tanto que parei o baile – o compromisso das 21:50, neste caso -, e fui comer um prato de comida chinesa no centro comercial. Soube-me mal e comi pouco, acho que já não estou habituada a essas mistelas. A ideia de cozinhar punha-me de cama de exaustão. No dia seguinte, ainda que durma oito horas, sinto que acordei de um coma profundo. Quero tomar banho, vestir-me, tratar do cabelo, e demora tudo uma eternidade. Os meus membros perderam a agilidade… e pensar que eu subia a telhados e me equilibrava sobre muros de dois andares… No domingo, deitei-me às cinco e meia da tarde, e depois acordei às nove sem vontade de me levantar, mas sem forças para fazer fosse o que fosse. Fui ver novelas, acho, ainda deitada, ainda de olhos semicerrados, mas na sala. Ao menos saí do quarto por umas horas.

Hoje consegui quebrar o ciclo e cozinhar. Limpei a casa, lavei roupa. Passei o fim-de-semana na cama, por isso estava tudo atrasado. O tio Daniel fez anos na segunda, a mamã ligou durante a manhã toda, para tentar que ele viesse a casa passar o aniversário. Ninguém atendeu, e, já na sexta, apesar da viagem a Fátima e de ter de dedicar tempo ao cliente, também não consegui que me atendessem. A mamã precisa mesmo de outra pessoa a tentar com tanta força quanto eu. Ontem passei três horas no hospital com a avó N., e ela não é a mesma de há nove meses. Está cansada, frágil. Faz toda a viagem de carro – 15 minutos – com as mãos na posição em que lhas pusemos quando se sentou. Levei a tia Ana, ela tem de se ir preparando para a realidade. Deixo-a perceber as coisas sem grandes conversas. Como se diz a uma criança que vai perder a pessoa que mais ama? Como é que a pessoa que a emalou sempre, no colo, pode preparar-se para se separar daquela/e que achava que protegeria sempre? Sei como a avó se sente mal por não saber nada sobre os nossos desfechos. Irei casar-me? Terei filhos? Como vou educa-los? Ela iria adorar esta parte, havia de se meter em tudo. Sempre me disse “quero ver um dia, quando tiveres filhos”. E vai ver, mas não nesta dimensão. Quando vocês vierem, já não vou ter nenhuma amarra com o meu passado. Vai desaparecer todo nos próximos cinco anos (quem sabe menos). Tudo o que passei quando era pequena – dos sapatos de verniz preto aos rebuçados flocos de neve -, vai estar guardado dentro de mim, e será apenas meu. Será que vou contar versões diferentes da realidade, por terem partido as testemunhas? Deve ser bom ter alguém a contestar quando dizemos “nunca mamei”. Deve faltar uma mãe que diga “mamas-te sim, até aos dois anos”. Será que isto é uma coisa que falta à pessoa sem que a pessoa saiba que é isso que dói? Será que nos falta ouvir a nossa mãe a repetir como se sentiu no dia que nos teve, sendo nós primogénitos, e como a alegria suplantou todas as dores e mal-estares? Será que nos falta ouvi-la contar como foi da primeira vez que nos largou a mão e caminhámos sozinhos? Será que falta esse amor que nos garante que, mesmo quando errávamos todos os dias, quando tropeçávamos, quando a gramática se enrolava na boca desdentada, aquela pessoa, de todas no mundo, acredita em nós e no nosso progresso? No nosso sucesso? Na nossa capacidade de nos batermos com o mundo em redor e de vencer?

Não há boas perspectivas e a mamã sente que isso é válido para todos os campos da minha vida.

O melhor momento da minha semana deu-se em torno da tragédia de outrem. Enquanto falávamos de coisas difíceis, ríamo-nos. A mamã não conseguia evitar. Lutava um bocadinho com as lágrimas, também. Lembram-se? Ele já me viu chorar, não lhe queria fazer isso de novo.

Ele não sabia como pôr as mãos, nem eu. Quando um de nós dizia algo desapropriado e caíamos no riso (ele tem uma gargalhada contida, meio roufenha), recuávamos de seguida. Sabíamos bem que não era para estarmos ali a rir, que nem o conteúdo das nossas palavras estimulava o riso. Mas, enquanto ele me contava que tinha tido um dia muito difícil, apeteceu-me contar-lhe que toda a minha vida tem andado por esses carris. Apeteceu-me, como não me apetece perante mais ninguém (a mamã perdeu isso, não me saem os pensamentos com facilidade, comecei a guardar os mais importantes), contar-lhe a minha história. Uma última vez… Só o fiz para outra pessoa. [Conforme lhe escrevia, recordava-me de vergonhas que, outrora, me esforçara por esquecer. Ele ajudou-me a exorciza-las, só por existir do outro lado dos correios.]

Pelo que lhe fitei as unhas limpas e curtas, fitei-lhe o perfil (gosto tanto do nariz dele!, de como os óculos lho emolduram!) o cabelo escuro, o torso magro e a camisa que lhe assenta tão bem. Juntos, deliberámos sobre os destinos dos outros, e por um instante parecemos dois velhos amigos a falar. A mamã tinha tantas coisas para lhe perguntar…

 Não pode ser, e a mamã sabe. Às vezes parece que ele também se lembrava disso e então, o homem sério que me sorria e encolhia os ombros e torcia os lábios de modo teatral enquanto pensava (já sou capaz de desenhar de cabeça os lábios dele) , voltava a ser o homem sério. Nem parecia que, alguns instantes antes, me olhara de detrás dos óculos, com o rosto apoiado nas mãos e os cotovelos apoiados na mesa. Despedimo-nos com um aperto de mãos frágil. Não quis apertar-lha, e então, por um instante, foi como se a minha mão repousasse na dele, para que a acariciasse e me passasse alguma força. Não estou certa de que o tenha feito.

A mamã não vai sofrer por este homem – há coisas que podemos escolher. De todas as oposições, a minha é a mais difícil de vencer. Não consigo ganhar, por via da razão, ao meu coração. Mas o meu coração está envolvido nisto q.b., pelo que consigo retirar a cavalaria, mesmo porque a circunstância é a da impossibilidade. Esta outra prisão não tem saída, mas é arejada. Fazia-me bem mudar de ares. Bem precisava de um enredo diferente, tenho vivido num beco sem saída.

Se calhar, por esta altura, já me deveria ter convencido de que nunca vou ter a família que nunca tive. Talvez seja só um sonho para a vida me convencer a ir ficando, dia após dia, e a servir todas as causas sem uma alegria pela minha existência também. E há ainda outra opção: a de ficar com a segunda ou a terceira escolha, as vias tortuosas para chegar a vocês.

O que é que a mamã deve fazer? Abandonar o sonho ou abraçá-lo com um third best?

E porque é que ainda não o abandonei de vez?

Vou dormir. Amanhã tenho de me reerguer de outro coma.

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