Carta aos meus filhos -#115

Enquanto lavava os dentes antes de me vir deitar, reparei em como os cabelos prateados não acompanham apenas a linha da testa, como na avó Norvinda. Já se infiltraram pelo meio do resto, vejo-os a reluzir quando seco o cabelo de manhã. No outro dia descobri uma série de derrames no pé. Apareceu-me um pêlo no queixo – a tia Cláudia já o viu à luz do sol e fartou-se de rir. Estou a envelhecer. As pessoas perguntam pelo meu futuro. A mamã tem uma carreira. Uma carreira para a qual 2017 será um ano decisivo. Um ano que há-de servir de grande impulso e aprendizagem. E, espero, de grandes ganhos.

Ainda me surpreendo com rasgos de um romantismo que julgava ter adormecido em mim. Perguntei-me, enquanto vestia o pijama lavado, porque é que não me apaixonei mais vezes. Se em cada encontro antevejo um enredo, um romance, um “era uma vez”, como é que não me apaixonei mais vezes? Será que os homens, à parte de poucos, simplesmente não me interessam para nada profundo? 

(Nunca me dei. Nunca me dei.)

Ele ligou-me, esta semana. Não lhe reconheci a voz: na realidade, não tinha o número gravado e não podia crer que fosse ele. Ele nunca ligou. Foi sempre a secretária. Há meses que é a secretária a ligar. Outros homens na posição dele não ligam… Custou-me a reconhecer-lhe a cadência da voz. Depois, ainda que, como sempre, discutamos assuntos sérios, rimos. Rimos os dois. E, dos dois lados da linha, a inteligência é a mesma, mas a distração e o despiste também. Parece que estou a falar com a Célia ao telefone. Então rio-me duas vezes. Uma pelo que disse, outra por ele se rir do que eu disse. Não sabia como dizer adeus. Desejei-lhe boa semana. Quis perguntar tanta coisa…

Mas a mamã recusa-se – ou talvez seja incapaz – de  atravessar pontes. A mamã deseja desesperadamente que alguém atravesse para o lado de cá. Vivi demasiado tempo na terra de ninguém. 

Um peito é uma barreira por detrás da qual bate um coração. Não sei porquê, mas, da última vez que estive sentada perante ele, vi-lhe o peito. Ele estava composto, como sempre. Todos os botões da camisa aprumados, nem uma nesga de pele se adivinhava por entre as pregas do tecido. Mas, na minha cabeça, com os meus olhos, vi um torso magro e penugem escura. Será bom sinal ver-se alguém despido quando a pessoa esteve sempre coberta? Não havia nada de sexual nisso. Nunca pensei nele assim. O mais longe que me atrevi a imaginar foi um abraço. A mamã gosta de abraços. E de beijos. Mas tanto abraços como beijos são coisas especiais. Uma pessoa não pode desperdiçar um beijo ou um encontro de peitos com a pessoa errada. Um beijo bastaria com este homem. Não é meu. Não o amo – mas o potencial grita tão alto, dentro de mim, que quero calá-lo e não consigo. Se ao menos tivesse coragem para lhe perguntar;

– ouve lá, também me vês despida e vulnerável?

Quem sabe concluíssemos os dois que já nos conhecemos de outra vida. Quem sabe ele me pudesse salvar de uma vida vazia.

Entretanto, amar alguém é ir ao cinema com outra pessoa e ver o filme todo pelos olhos de quem se ama. Como se, a cada instante, ele estivesse ali quando nunca está.

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