Carta aos meus filhos #116

De vez em quando, ele remexe-se cá dentro.  De vez em quando, ainda me leva uma lágrima. Acho que é por causa das recordações. De ter sido tão bonito quanto ilusório, e durante tanto tempo. Assusta-me ter estado tão enganada durante tanto tempo. Assusta-me a gritante falha de percepção e de cálculo. E, como gosto de me torturar, revisito os momentos. Mas só os melhores. E iludo-me de novo. Aceito a complexidade das relações humanas, mas esta história foi muito além de complexa.

Depois regresso à realidade e pergunto-me que raio estava eu a pensar. Como é que sempre vi tudo tão bem e, neste assunto, estive sempre cega, surda, muda e anestesiada.

E como poderei confiar na minha intuição, daqui por diante? Como poderei amar sem um medo grotesco de que tudo falhe? De que nunca serei amada de volta? Como é que as coisas podem ser tão perfeitas e, ainda assim, serem mentira?

É por culpa dele que nunca saltei de olhos fechados. Nunca. Tenho sempre medo que me deixem cair do outro lado. Nunca me dei. Nunca quis confiar. Nunca …

Hoje a mamã sentiu-se estranha, de manhã. Às vezes parece que a presença dele me assombra. Que quando vejo um filme é com ele que quero discuti-lo. Que quando uma música me toca é a ele que quero mostrá-la. Que quando me comovo com o perfume da madressilva no caminho para o trabalho, ou com a menina que come sopa sozinha, ou com os amigos que se reencontram no elevador avariado, é junto ao pescoço dele que quero verter essa comoção.

Espero que o meu castigo termine em breve. A mamã tem sido boa nesta vida. A mamã já atirou moedas em fontes, já suplicou a estrelas cadentes, já pediu a pestanas caídas para o ter. E depois beijou o chão de igrejas, acendeu velas e fez promessas para o esquecer. O universo esteve sempre em silêncio perante as minhas preces. Recusa-se a aliviar-me. Quem sabe a distância me salve um dia… a Irlanda ou outras paisagens tais.

Hoje a mamã pensou que só pode ter-vos se for capaz de amar e de ser amada. Caso contrário, se o príncipe nunca existir para mim, vou tentar adoptar uma criança. E essa criança não terá sardas nem caracóis. Mas estas cartas terão sido a pensar nela também.

Acredito que só o preenchimento de um filho poderá atenuar o vazio deste purgatório. E, mesmo assim, não a todos os instantes.

Que seja o que tiver de ser. Estou desperta e atenta. Estou até apaixonada. Espero que o resto seja varrido pelas águas… levado pelo rio.

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