Carta aos meus filhos #117

Duas coisas começam a acontecer quando te aproximas dos trinta. A primeira é que tens menos tempo para reflectir. A segunda é que os mistérios da vida começam a revelar-se com mais clareza, sem que seja necessário despender tempo em contemplação. Ontem à noite, cansada e um tanto desanimada, meti-me no pijama com receio de que o meu espírito se voltasse a quebrar. Foi um medo que durou dois instantes, depressa arrumado para o lado pelas mil e uma obrigações e pela exaustão, que, assim que caio na cama, me arrasta de imediato para sonos profundos. Isso dissipou-se hoje, assim que me sentei com os meus garotos no jardim de Almada, onde fui tão feliz enquanto criança.

Quando estávamos a chegar, o meu sobrinho caiu. É impossível controlarmos cada gesto de uma criança de seis anos pelo que, quando olhei para trás, já ele estava estendido no chão e com cara de aflição. Aproximei-me dele, vendo o joelho rasgado e o sangue a cobrir a palidez da pele violada. Procurei-lhe os olhos, à espera de um grande pranto. Além do sangue, havia uma bela quantidade de pele rasgada. Tinha-os cheios de lágrimas, a boca torcida num esgar, mordida, para evitar queixar-se. Disse-lhe, com toda a calma que pude na altura – porque a pior coisa que se pode fazer a uma criança assustada é assusta-la mais -, que podia chorar. Se te dói podes chorar, não faz mal. Até ajuda a aliviar a dor. Depois, a muito custo – muiiiito – peguei neste rapaz de seis anos que tem quase a minha altura e levei-o até ao chafariz do jardim, a uns cem metros. Senti que todo o meu esqueleto se desconjuntava, mas ele estava com receio de pousar a perna no chão e achei que, pelo menos isso, podia fazer por ele. Apoiei um pé para poder improvisar-lhe um assento na minha perna, e aliviei assim as costas enquanto nos debruçávamos sobre o chafariz. Lavei-lhe o joelho com cuidado, certa de que a água fria lhe haveria de atenuar a ardência do arranhão. Achei que já era hora de sorrir, posto que ele já não tinha vontade de chorar. Perguntei-lhe se era a primeira vez que esfolava o joelho. Era. Foi logo comigo, que privilégio. Disse-lhe que não vai ser a última vez, e que eu própria rasgava a canela inteira – ilustrei-lhe, é aquela área por onde a água escorria, ensanguentada. Eu própria rasguei a canela inúmeras vezes. O joelho, os cotovelos. Mas sabes o que dói mais? As palmas das mãos.

Ainda macambúzio, quis entrar no parque infantil para brincar um pouco, mas eu mal tinha aberto o meu livro quando voltou, de mãos nos bolsos dos calções, e me comunicou que gostava mais de ir para casa, ver um filme. Prometi-lhe que daí a cinco minutos iríamos para casa, então. Mas que, assim sendo, tinha de aproveitar os cinco minutos o melhor possível.

O Rodrigo – o vosso primo Rodrigo -, não chorou da primeira vez que esfolou os joelhos. A tia nunca o viu fazer uma birra. O que a educação faz às crianças… Ou talvez tenhamos apenas a sorte de ter tido um menino irrepreensível. Ele e a tia Ana – que, aos onze anos, era das meninas mais grandes do parque -, puseram-se a escalar a um dos equipamentos e a falar de índios. Em breve vieram dois meninos morenos, um na muda dos dentes, talvez de oito, nove anos, mas enorme. Outro teria uns quatro ou cinco anos, e foi escalado para ser a águia do acampamento índio. Uma menina tipo princesa, de cabelinho bem-apanhado e sorriso desdentado, também quis fazer parte do acampamento índio. Ficou decidido que a Misa, a cachorra mais histérica de Almada, faria de urso ou de peça de caça. A propósito, os homens vão caçar e as mulheres cuidam da casa. Não pude interferir nessa brincadeira. Hoje em dia já não é assim, mas atribuir-se um papel aos homens e outro às mulheres, na medida das suas capacidades, e num acampamento índio, é assim. Os rapazes foram caçar com flechas (dois gestos de braços), o pequenino fazia de águia que lhes guiava o caminho, o Rodrigo era o Índio Perneta, um urso tinha-lhe flagelado a perna, e a outra menina recolhia folhas para assar o animal que os homens trouxessem. Escusado será dizer que o nosso moço viveu cinco minutos que se percorreram por duas horas.

Sentada ao canto, fiquei deslumbrada com tudo o que vi. Com as crianças a serem crianças. A arranharem-se, a sujarem-se, a meterem-se em brigas, a incluírem-se umas às outras. Lá ao fundo, de amarelo e com uns óculos de sol enormes a coroarem-lhe o sorriso, estava a minha professora primária. Uma africana branca. Assim como a minha mãe é uma portuguesa negra. As grandes confusões na minha cabeça, quando tinha cinco anos de idade e entrei na escola.

A minha Ana não tem grande vergonha na cara, aborda todos com as suas ideias, pede raquetes emprestadas a outras crianças e meteu o sobrinho a jogar à bola com um rapazinho mais velho com traços orientais e largos caracóis escuros. Os dois rapazes depressa se tornaram parceiros de boladas, cada um a chutar com mais força do que o outro. A Ana foi jogar badminton com outro rapaz da sua idade, deixando o irmão mais velho do moço livre para ir jogar à bola com uns matulões mais velhos.

A dada altura, entendo que o que se está ali a passar é muito maior do que eu tinha antecipado. Chega um menino de ascendência nepalesa, teria nem dois anos e caminhava, trôpego, por entre os outros que se perseguem e gritam. Depois chegou uma menina negra com um sorriso amoroso, trancinhas nos cabelos e as calças rasgadas nos joelhos. Vê a Misa e barrica-se no barco pirata, ficando a vigiá-la lá de cima. Entendo que tem medo de cães. Um menino indiano (provavelmente paquistanês) passa em corrida. Entretanto, uma mãe com um bebé de seis ou sete meses ao colo senta-se, dá o lanche à criança e, a cada vez que se houve o chuto de uma bola, cobre-lhe a cabecinha. Um menino negro, que a Ana insistia em chamar de “escurinho”, está sozinho. Dou um toque à Ana e ela vai busca-lo e incluí-lo na brincadeira. Ensina-o a servir no badminton. Pouco depois, esse menino, o dono das raquetes e a minha irmã, começam a revezar-se nas raquetes.17841724_1485149608170815_359979273_n

Quantos éramos, e de quantos cantos do globo tínhamos vindo, naquele pequeno recanto de Almada? Oiço um sotaque brasileiro a chamar “Gustavo”, e o menino moreno e alto, muito mais novo do que a estatura faz crer, despede-se. A dada altura vejo a menina tipo princesa a abraçar a Ana. Vejo o Rodrigo em êxtase enquanto joga à bola com o menino dos caracóis. Com o mundo em plena harmonia, com as crianças felizes, com os pais descansados, distraídos, acomodados, atravesso o campo para cumprimentar a minha professora da primária. Pergunto-lhe quem é o neto que acompanha. É o rapaz que está a desafiar os limites do meu sobrinho, bem mais pequeno. A coincidência põe-me a sorrir. O dia não poderia ser mais luminoso. O neto da minha professora, que mora na Amadora, está a jogar à bola no jardim de Almada com o sobrinho da aluna que ela garantiu, na escola primária, vir a ter um bom futuro se a deixassem estudar.

A minha preocupação tem sido apenas uma, ultimamente: o sofrimento atroz que a avó N. está a passar. É uma sombra do que era. Uma película de um suor estranho cobre-lhe a pele a todas as horas. Está macilenta. Agasalhada contra as pneumonias. Não tem prazer em ver TV. Aceita uma amêndoa, uma bolacha, um chocolate. Já não se ri. Eu ri tanto com a avó. Às vezes parecíamos duas parvinhas. Às vezes eu pedia-lhe que parasse de se rir, porque ela fazia piada de tudo e dava gargalhadas sobre coisas que me embaraçavam. Quem me dera, agora… Chorámosabraçadas algumas vezes, também. Quando precisava de ajuda para salvar o mundo, ela era o meu ponto de partida e o meu porto de abrigo, ao regressar.

Quando a minha depressão começou, depois de o Napoleão desaparecer e de toda a família lamentar o facto, o avô Américo disse que não queria mais animais lá em casa. Que não queria sofrer de novo. Quando se ama, sofre-se. Ficou estipulado – ele deu poucos murros na mesa, mas dessa vez deu. O meu coração estava despedaçado e, a dado momento, senti que tinha que tentar de novo. Então liguei à avó e pedi-lhe um favor –  tinha demasiado de ter essa conversa ao vivo, e que ela começasse a gritar e que toda a casa se revoltasse contra a minha ideia e não me deixassem ir adiante. Nunca lhe tinha pedido nada complicado, nem nunca lhe tinha pedido nada com essa solenidade. Pedi-lhe se, para meu bem, para que o meu coração voltasse a bater, aceitariaque eu adoptasse outro gatinho. E ela disse que, se era para meu bem, fosse.

Agora a avó N. está a lamentar o facto de ainda estar viva. Pergunta o que Deus quer dela. Porque não a leva. Porque a faz passar por isto, em que subir uma perna é uma viagem impossível e dolorosa. E a mamã pergunta-se se a tia Ana sabe a dimensão do que está prestes a perder. E não termina por aí, mas eu fico por aqui.

Cheguei cedo a casa, neste sábado. Pus a tocar a “In a Sentimental Mood”, de John Coltrane e Duke Ellington, e demorei a acender as luzes. Sentei-me na cadeira da minha secretária, com a sombra dos gatos a agitar o ar ao meu redor, e foquei-me na única estrela visível no céu, numa espécie de poeira cósmica que o atravessa e na luz distante no quintal de um vizinho. A mamã acabou por se conformar. A mamã deixou de lutar seja pelo que for, e a resposta é lógica: é um gasto de energia preciosa. A mamã vive em modo eco, e isso impede-me de fazer algumas coisas, mas protege-me de grandes quedas. A mamã não tem já a capacidade de experimentar grande alegria ou grande tristeza, e não tem já a capacidade de fantasiar, de se emocionar, de acalentar esperanças, de imaginar cenários de sonho para si mesma. A minha vida é trabalho e contas para pagar. A música é o meu único prazer. A música funciona por si mesma, nem tenho de levar ninguém comigo a ver Ludovico Einaudi. Sentar-me-ei no escuro e deixar-me-ei envolver pelas suas composições. Posso até chorar de emoção – dessa emoção boa de quem está perante algo de maior, algo de uma beleza inexplicável, mas esmagadora de tão óbvia. Como chorei, sozinha no escuro, quando fui ver a Madame Butterfly ao São Carlos. Mas não leio, não escrevo. Não sou eu quando não leio nem escrevo. Entendi que me é mais fácil não amar quando não leio sobre o amor. Parece ton
to? Talvez. Mas ler sobre os amores dos outros lembra-me da esterilidade do meu.

Um dia, nada disto fará sentido. Todos teremos a nossa família feliz, umas mais de fachada do que outras. Teremos a nossa cota de divórcios, de casamentos e de funerais. E a mamã há-de vê-lo a vida toda, pela vida fora. E terá sido, pelo menos para mim, uma vida desperdiçada. Acho que nem eu nem ele tivemos grande noção do que é uma família. Posso estar enganada, mas creio que fomos ambos estranhos na nossa própria casa. Julguei que a vida nos tinha esculpido à medida um do outro, para que realizássemos juntos o sonho de ter uma família a sério, não como protegidos, mas já como protectores. A mamã engana-se, mas até há pouco tempo nem isso sabia.

A mamã também entende, no decorrer dos últimos meses, que uma vida cheia de luz e de alegrias não é o que o destino preparou para mim. É melhor encarar já a minha personagem. Serei aquela pessoa a quem o amor esteve sempre vedado, a obsessivo-paranóica, a que tem um feitio demasiado neurótico para que alguém a aturasse, a que tem gatos, a que lê muitos livros – e isso é esquisito – e a que não gosta de discotecas nem de sunset parties.

Em contrapartida, tenho a voz dos poucos amigo
s verdadeiros que me ficaram. E a voz dela, a semana passada:

– Sinceramente? És demasiado inteligente para os homens de hoje em dia. Faz-te de burra e consegues logo arranjar um. – E depois, na dúvida, e até receosa, acrescentou – Mas não sei se isso é bom, ou se
queres isso…. Devias esperar por alguém que goste de ti como és, isso era o ideal.

O ideal… Até quando é que a mamã pode esperar pelo ideal? Vocês estão malucos por vir brincar com os primos… E eu ando tão cansada que mal tenho tempo para jantar, para estender a roupa. Ultimamente, tenho precisado mais do que nunca de outra pessoa cansada a meu lado. Está na hora de ter quem me massaje a cervical, e de ter a quem ligar por volta das seis, a dizer que vou passar na mercearia e a perguntar o que é que ele quer jantar hoje. Vejamos o que a vida escreveu para mim, meus amores.

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