Carta aos meus filhos #118

Apesar de tudo, foi demasiado rápido e a mamã ainda não está preparada para pensar. Ao invés, estou esmagada por burocracias e por cansaço. A mamã é a telefonista da avó V., aponta as suas marcações na agenda e depois transmite o recado. A mamã sabe que a avó V. não terá todo o apoio que a avó N. teve, e a falta de afeição é tanto causa dos outros quanto dela própria. 

A mamã caiu num fosso de solidão. Uma solidão esquisita, porque me rodeei de pessoas, de afazeres. Hoje conheci uma pessoa nova, por exemplo, vi tantos conhecidos, falei tanto ao telefone. No entanto, sentada ao lado dos rostos de sempre, é como se não estivesse bem ali. O cansaço que me dá dores na cervical e no pescoço, todos os dias e sem excepção, arranca-me a tudo. Não consigo cozinhar. Se não cozinho, fico fraca. Se fico fraca, menos ainda cozinho. 

A mamã vai ocupar-se das tias e vai correr tudo bem. Mas a mamã já tem saudades de quando estava tão preenchida pelos outros que ansiava por estar a sós. Agora parece que estou sempre sozinha e, no entanto, ninguém me toca e eu não toco em ninguém.

Continuo sem poder ler um livro, sem poder escrever. Trabalho, trabalho, trabalho. Tenho a agenda cheia de serviços de guia este ano e sem energia. Hoje senti, duas vezes, que ia rebentar em lágrimas. Ainda não chorei – só quando me é involuntário, e não vem por associação a nenhum pensamento. É uma tristeza fisiológica, advém da perda da única pessoa que me deu colo. Fora ela, foi tudo arrancado a ferros na minha vida.

A mamã continua a gritar a plenos pulmões pelo vosso pai. Preciso dele. Preciso que preencha alguns papéis por mim. Que vá a algumas reuniões por mim. Que marque algumas consultas por mim. Que tome decisões por mim, para que eu possa descansar os calos das mãos da aspereza das rédeas. Preciso que ele esteja lá e que cuide de mim. Só agora, toda a vida quererei tomar conta dele… mas agora preciso mesmo que ele olhe por mim. Que me dê a mão. Inclusive, preciso que me leve ao colo. Que me deixe chorar e fazer luto, porque a mãe teme soltar a dor. Teme que a caixa de Pandora, uma vez aberta, seja impossível de fechar. A mãe desconhece a dimensão do corte, mas sente o frio da lâmina a todas as horas e vive com essa ânsia. Não posso viver isso sozinha – nas primeiras noites não pude dormir e receei o escuro e as lembranças. Quando é que ele vem? Para que eu pudesse chorar junto ao pescoço dele, e que ele me apertasse com tanta força que as dores nas costas passassem?

A mamã já deixou de viver há um ano, talvez mais. A cada vez que pisco os olhos, estou mais velha. Olho-me ao espelho e não me lembrava de mim assim. Ele podia vir encostar o ouvido ao meu peito, para ver se ainda bate.

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