Carta aos meus filhos #119

Hoje despedimo-nos. É possível que nunca mais nos vejamos na vida. O que tem de ser tem muita força. Está certo assim, nunca fizémos mal a ninguém. Não me parece que isso esteja na nossa natureza. Só não entendo porque é que, uma vez mais, e por milagre, me apaixonei mas pela pessoa errada. Agarrou-me a mão. Depois a outra. Houve um momento em que pensei que fosse abraçar-me, houve um momento em que julguei que fosse dar-me um beijo no rosto. Tinha-o a apertar-me ambas as mãos, a olhar-me nos olhos e a olhar-me para as mãos. Foi tão incerto, mas o meu corpo todo foi puxado para ele pela gravidade. Cambaleámos os dois. Era o adeus e sabíamos. Quase nos abraçámos. Isso teria complicado tudo. Mas ele segurou-me a mão, até ao fim. Eu já tinha virado as costas e ele ainda me estava a segurar a mão. Soltá-la custou-me mais do que tinha imaginado. Não olhei para trás. Receei que os meus olhos falassem demais.

Parece filme, eu sei. Hoje a mamã despediu-se de outra possibilidade de ser feliz. Mas outras virão, espero. Toda a minha vida tem sido sobre largar a mão. Quando é que a vida me vai deixar ser feliz?

keep me where the light is

Advertisements

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s