Carta à avó #1

Avozinha, sonhei que te abraçava. Na realidade, agora que estou um bocadinho menos assustada, acho que vieste dar-me um abraço. Estavas com o avental azul e o cabelo solto, e eu encostava o meu peito ao teu e sorvia o pano do teu avental. Encaixava os cotovelos um pouco acima das tuas ancas e pousava o queixo no teu ombro. Ainda conheço exactamente os ângulos do teu abraço, e recordo-te assim, quando eras a pedra basilar do meu mundo e quando parecia que nada haveria de te derrubar ou de te arrancar de mim. Abraçavas-me de volta e dizias “olhem para esta caganita, é mesmo baixinha, a minha neta”. Porque tu eras maior do que eu. Pertencíamos uma à outra.

Um abraço é aquele gesto em que colocas tudo o que és ao alcance do outro; e em que o outro cinge o teu mundo inteiro por um momento, e tu envolves o dele. Sabias bem como eu adoro abraços. Pensando bem, não me recordo de jamais abraçar a minha mãe ou o meu pai. Mas abraçámo-nos tantas vezes, as duas. A rir, a chorar, até às lágrimas por uma e por outra coisa.

Agora parece que estás sempre comigo. É verdade o que dizem. Oiço os teus comentários ao ouvido sobre todos os assuntos. Sei até que ficaste muito feliz por Portugal receber o Papa, e que ficaste preocupada com a saúde do Sobral, como se não tivésses nada mais perto com que te arreliar.

Tenho saudades tuas, avó. Já começou. Ontem senti o primeiro golpe. Eras o meu amparo para o abismo e o meu tecto. Interpunhas-te entre mim e o relento, entre mim e a noite escura e anónima. As tuas mãos eram tão fortes… não eram as mãos de uma senhora de setenta e sete anos. Seguravas as minhas, tinha-las sempre quentes e dizias que eu as tenho sempre frias. Aquecia-las nas tuas e sorrias, daquele teu jeito que era só um recurvar de lábios, uma carícia incondicional. 

Vou ter sempre saudades tuas, a todos os dias, agora. Recordo-te sempre de pé, a cozinhar um cozido com a Jussy ao ombro. A rires-te da gata, da cadela, das asneiradas do avô, das gracinhas da Ana. No outro dia encontrei uma fotografia tua, de há dez anos. A Ana era um bebé de colo e tu estavas ao fogão, com uma mão na colher de pau e outra a amparar a Ana. A tua Anita. 

Obrigada por teres sido nossa mãe. Sem ti, não faria ideia da dimensão infinita de amor por detrás dessa designação.

E eras tão bonita, avó…

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