Carta à avó #2

Avó,

Nasceu a Maria Clara. Sei como este acontecimento te teria feito feliz, teria adoçado um pouco mais os teus últimos dias, mas talvez amargurasse a tua partida. Terias curiosidade em relação a ela, assim como professavas essa mesma curiosidade em relação aos filhos que, um dia, eu possa vir a ter. Sempre que nasce alguém, o nosso coração fragmenta-se uma vez mais, o amor multiplica-se – não se divide. Há mais amor, agora. Há a perspectiva de ver alguém a crescer e a se ambientar a esta época surreal em que vivemos.

Sinto que o vento me chama. Trago mais exaustão nos ombros hoje, do que em toda a minha vida anterior. Estou rodeada de problemas que não posso gerir nem resolver. Tenho de esperar três dias para conseguir ir ao supermercado comprar algo de que precise, e depois mais cinco dias para poder tirar a coisa do saco e dar-lhe uso.

Preciso de ler. Preciso de escrever. Preciso de amor e de terapia para a alma. Tenho de sair daqui. É-me vital sair daqui. Nas últimas semanas afastei-me mais ainda do núcleo da cidade. Longe do centro, tudo ganha outra perspectiva. Houve quem fosse pôr-te flores no cemitério, e é por esses que o meu coração bate. Sinto que a minha juventude ainda pode ser salva. Tenho um punhado de anos para dar sentido a tudo isto. Andamos todos tão sozinhos, ao ritmo de estranhas marés, sabes? A simpatia e a distância caminham lado a lado. E o receio de que, uma vez mais, se abata um machado sobre a minha cabeça, ou venha outra agulha perfurar-me o coração. Tudo o que tinha para oferecer foi rejeitado, e agora não me resta nada para dar. Talvez seja a minha vez de receber, mas não nesta terra infértil.

Vou ser feliz, avó. Mas preciso de tempo e de dinheiro. Preciso de canalizar o melhor possível as minhas energias, para que possa aproveitar a vida. Na realidade, estou a trabalhar para pagar contas. Quando recebo um dinheiro extra, vem o teu funeral. Depois vem a lápide. Depois vem uma multa de Itália. Depois outra da universidade. Depois vem outra multa de Itália. Depois vem uma dor de dentes. Parece que estamos condenamos a viver no limiar da pobreza, da sanidade mental. Quero ser feliz. Vou ser feliz, avó.

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