M.

Hoje o teu nome surgiu no ecrã do meu telefone. Foi um momento de pânico, e depois uma estranheza tal… Perdi, ao mudar de equipamento, os contactos das pessoas que me ligam diariamente. E depois esse nome no ecrã, dois meses depois de termos segurado a mão um do outro pela última vez, foi surreal. Toda eu estremeci. Eram três e meia da tarde e não tinha almoçado. Senti que a tensão caía a pique, que o calor me esmagava, que as minhas extremidades se sacudiam de tremuras. Atendi. Não eras tu. Era a pessoa que trata dos recados por ti. Lá respondi às perguntas da moça, e depois desliguei convencida de que tinha de te ver. Que dia era hoje? Segunda-feira? Soube onde te encontraria. Então, meti-me no carro, liguei o ar condicionado e voei até onde estás. Fui tratar de um assunto, e o assunto é também pretexto para te ver. O espaço em si traz-me más lembranças. A conversa das pessoas e as suas esperanças goradas são-me ainda muito familiares. Sinto saudade, melancolia, um aperto no estômago quando me aproximo dessas janelas. Não tinha chegado nem há cinco minutos quando te vi. Num dia em que os trinta e um graus deslizavam pela pele de todos, sob a forma de suor, estavas com a camisa azul aos quadradinhos. Manga comprida. Dispensas a farda que todos os outros envergam, distingues-te de imediato, alto, magro, sério. Passas por mim e vejo-te a afastares-te de costas. Nem me reconheceste. Toda eu entrei em combustão. Trazes-me uma paz e uma inquietude estranhas. A paz de um coração que bate, e de saber que não há nada que pudesse fazer por nós. A inquietude de uma pessoa que não consegue manter os dois pés no chão quando fala com outra.

Então, pouco depois, vi-te caminhar na minha direcção. Atravessas-te a sala com os olhos enganchados nos meus. Tentei não sorrir. Tentei não ficar séria. Tentei não parecer exultante, tentei não parecer deprimida. Passei o peso do corpo para a outra perna e parei de abanar a folha que usava como leque. As nossas mãos encontraram-se. Deixaste crescer a barba, o cabelo também está um bocadinho mais selvagem. Olhaste-me por detrás dos óculos, como é astuto, esse olhar. Não disseste nada, só um breve menear da cabeça e respondi-te ao que querias saber. Que estava eu a fazer ali. Entendeste. Ofereceste-me ajuda, caso precise. Agradeci e prosseguiste. Meia hora depois voltaste a passar por mim, sorri-te mas nem olhaste, foi como se não nos conhecêssemos, como se não tivesses segurado a minha mão entre as tuas, como se não a tivesses retido enquanto eu a libertava, ao sair. Estava mesmo convencida de que jamais nos veríamos, de novo.

Mas ali estávamos hoje, a poucos metros de distância, com uma janela inundada de sol a interpor-se entre nós, e os teus afazeres traziam-te uma e outra vez à minha presença. E o homem hirto que não me conhece passava determinado em não me ver. E, por fim, esbarrámos de frente, os meus afazeres e os teus. Fiz uma careta. Riste por entre os dentes. Os teus olhos sorriram. O teu corpo sorriu. A tua boca sorriu, e o meu coração inundou-se um pouco mais de alegria. Uma alegria esquisita e inexplicável. Uma alegria que experimentei poucas vezes na vida, prenhe de rasgos fatalistas, mas que me abraçou e me ergueu alguns centímetros do chão, hoje.

Fui-me embora. Tinha de ir, o trabalho chamava-me. Quando cheguei ao carro ainda ia nesse estranho estado de flutuação. E perguntei-me: qual era a nossa música, mesmo? Vieram-me algumas à ideia, mas sabia que não era nada disso. Sabia que havia uma música que coloriu os meus pensamentos nos poucos momentos em que me atrevi a imaginar-me feliz com uma pessoa que me fizesse sentir algo. Nada. A memória está morta e a aplicação do telemóvel não quis cooperar. Ia pôr uma coisa qualquer a tocar, mas falhou tudo. Então pus o motor a funcionar e dirigi-me para a saída, decidindo-me por ligar a rádio, porque sou incapaz de não ouvir música. Qualquer música é melhor do que nenhuma música. A Smooth FM costuma servir bem esse propósito.

Tinha começado há poucos segundos. A nossa música. A música que me embriaga nas poucas e belas lembranças que tenho das horas em que me permiti sonhar que um dia seria feliz. Quando todas as portas me foram fechadas, e tudo me foi negado, e me senti sozinha e abandonada e cheia de medo, e pensei que nunca mais voltaria a sentir-me apaixonada, mulher, desejada, que nunca mais desejaria também, sonhei que talvez existisse outro homem como tu, mas possível. Vieste para me limpar de todos os homens que me fizeram mal, e fizeste tão pouco. Bastou inclinares-te sobre a mesa, olhares-me nos olhos e acenar com a cabeça. E a música estava a tocar. Continuava a ser surreal, mas nem pude chorar de emoção. Porque é evidente que o universo estava a conspirar para que voltasses hoje ao meu peito. Talvez o cosmos saiba do quanto preciso de esperança num final feliz nesta fase. Obrigada, universo. Segurei-lhe a mão, hoje.

 

 

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